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  • obrunoguma

Turno da Noite

Atualizado: Jan 2


Philip Guston

Em caso de chuva procure abrigo

Luís jogava bola na praia com os amigos. Chovia e trovoava e ele parecia ser o único preocupado. Era um dia cinza e um homem caminhava na água a poucos metros deles. Súbito um estrondo e um clarão. Luís ficou desnorteado, olhou para os amigos também desnorteados. Os contornos e as massas voltavam aos poucos a tomar forma. O homem que caminhava estava agora deitado. Ao redor da massa negra caída havia pessoas tentando fazer algo, em vão. A chuva não dava trégua. Às vezes, quando o saguão da portaria fica horas sem movimento, a lembrança daquele corpo desconhecido volta num átimo para Luís. O turno da noite é o pior.


On demand

Em sua mesa há uma TV de cubo onde aparecem as imagens das câmeras de segurança. Luís não sente falta dos canais abertos porque, para ele, a imagens internas são o seu próprio reality show, com personagens que só ele conhece. Luís passa horas olhando essas imagens do chão da garagem de concreto com linhas amarelas, o elevador com o aviso do síndico colado no espelho com durex, a calçada do prédio por onde às vezes passa um transeunte sem rumo. O ruído do video provoca nele um estado de transe, uma calmaria, como se tudo ao redor dele se anulasse. Está tudo bem agora.


Auto-ajuda

Augusto, o porteiro do turno da tarde, está sempre com a cara enfiada num livro. Hoje quando Luís chegou, Augusto falou “você tem que ler esse livro”. Se chama “O mundo é mais bonito com você”. Deixou na mão dele e foi embora. Luís achou estranho mas agradeceu, largou o livro em cima do balcão. Os moradores que passavam olhavam para o objeto, alguns faziam uma cara torcida, outros até folheavam. Luís resolveu abrir o livro em uma página aleatória, dizia: “Qual o melhor jeito de encarar o inimigo? O perdoando.” Fechou o livro. Uma tristeza profunda bateu em Luís. O mundo seria mais bonito sem Augusto, pensou.


Strike

Seu Arnaldo, o pai de Luís, era caminhoneiro e, às vezes, passava meses longe de casa. Um dia, seu pai voltou depois de um tempo fora, mas voltou diferente. Se recusou a comer o jantar de Dona Maria, sua esposa. Ao invés disso, se levantou e saiu de casa em direção ao seu caminhão. Voltou com um extintor de incêndio. Em um movimento como quem arremessa uma bola de boliche acertou a cabeça de Dona Maria, que caiu desacordada. Puxou o pequeno Luís pelo braço e saiu pela porta que entrou. Nesse dia pai e filho dormiram no caminhão, numa beira de estrada. Luís nunca tinha visto o céu tão estrelado como naquela noite. Não ventava.


Passatempo

Luís joga palavras cruzadas no seu turno. Mas ele tem seus próprios métodos: para preencher os quadradinhos ele só pode usar nomes dos moradores do prédio, vale também os nomes dos pets. Ele conhece todos os moradores na palma de sua mão: os hábitos e rotinas de cada um, o que comem, quem é herdeiro, quem tem amante, o que sonham, seus medos e prazeres. É como ter poder sem ter poder. Um dia completou uma cruzadinha, mas como não sabia o que fazer com aquilo, jogou-a no lixo no caminho para casa.


Movimento rápido dos olhos

Seu Arnaldo foi morar do outro lado da cidade pouco depois daquele dia. Foi parar na cadeia algumas vezes por brigas e pequenos delitos. Luís perdeu totalmente o contato com o pai. Continua morando com a mãe e dando tudo o que pode à ela. Mas ela insiste em continuar trabalhando. Ficou sabendo que um dia seu pai bebeu tanto que despencou no chão do bar e nunca mais levantou. Ainda assim Luís continua tendo sonhos com o Seu Arnaldo, e que o vermelho do sangue do pai e o vermelho do extintor se fundem em uma coisa só.


Evolução

Dona Maria tem 63 anos e é doméstica. Ela diz que o trabalho é bom e que ocupa a cabeça. Luís só queria que sua mãe vivesse os últimos anos de sua vida em conforto e paz, e não recolhendo o lixo das madames que passam o dia no salão de beleza e quando voltam para casa se jogam na poltrona. O tipo de pessoa que faz o todo percurso humano parecer em vão. Uma existência que não se justifica. O que mais dói em Luís é saber que quando o seu turno acaba o de sua mãe começa.

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