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O caminho das minhocas

Atualizado: Jan 2


Hans Tegner

1. Subi as escadas em espiral ao lado de minha mãe. Tinha dez anos. Entrei por uma porta onde um homem de branco me esperava. Vi um mural de fotos de crianças com sorrisos forçados naquela mesma sala. Sentei na cadeira do dentista. Enquanto ele aplicava a resina e moldava meu novo dente — meu incisivo lateral direito — fiquei com o olhar fixo no suporte da luz no teto. Pode cuspir, ele disse. Ao sair, o dentista disse pra minha mãe que eu ranjo os dentes enquanto eu durmo, que eu tenho bruxismo e que isso pode ocorrer por causa de ansiedade ou nervosismo. Logo eu, que já era canhoto, e agora me dizem que eu tenho bruxismo. Cheguei em casa e fui brincar no quintal gramado. Gosto de queimar minhocas e derreter cabeças de bonecos de plástico com a ajuda de uma lupa e a luz do sol. O cheiro tóxico que exala do plástico sempre me causou um misto de repulsa e atração. Algo como o cheiro da gasolina: era sempre motivo de alegria parar no posto para abastecer. Nessa noite, antes de dormir, tentei refazer a trajetória do dente quebrado: eu o engoli enquanto dormia e ele deve ter saído junto com as fezes, percorreu as tubulações carcomidas do esgoto junto a papéis higiênicos, peixes beta, absorventes, baratas e lacraias, formigas que caíram do precipício da beira da privada, papéis de bala, pedaços de unha, esperma, sangue, saliva, urina e todos os tipos de fluídos corporais. Adiciona-se o dente e temos aí um caldo único.


2. Alguns anos se passaram com meu dente falso até que aos vinte e cinco acordo com ele quebrado de novo. Se da primeira vez achei legal, agora já não acho mais. A essa altura já havia feito faculdade, morado fora do país, tirado os quatro sisos, começado a fumar, parado de comer carne, etc etc. Segui a cartilha do jovem millennial privilegiado à risca. Agora o fantasma de um dente vinha me atormentar de novo. Quando você quebra um dente perde ele pra sempre, pensei. Vou ao mesmo dentista que eu ia quando criança. As coisas estão diferentes agora, o mural de sorrisos forçados já não existe mais. A esposa dele que também era dentista havia morrido recentemente. Morreu em um acidente de carro, e nem era tão velha. Foi ela quem havia tirado os meus sisos que agora estavam enterrados no quintal de casa. Curioso é um dente: formado de esmalte, cálcio, cemento, dentina, polpa; com cúspides, fossas e fissuras. Podendo durar centenas, milhares de anos. A gente morre e o dente fica. Um resquício da nossa matéria quase eterno. Não adianta você querer passar despercebido pelo mundo: você vai deixar os dentes.


3. Muito tempo depois, enquanto as últimas ruínas do mundo caíam, assistia ao filme O Homem Que Não Estava Lá dos irmãos Coen enquanto comia amendoim japonês, quando mastiguei algo duro demais pra ser um amendoim. Passei a língua sobre o meu incisivo e constatei o que já suspeitava. Cuspi os restos da resina sem chateação. O personagem interpretado por Billy Bob Thornton no filme lembra uma versão hollywoodiana de Mersault de O Estrangeiro, pensei. Alguém que vive à margem, que só observa. Um tipo de resignação inconsequente, um conformismo imoral. No fundo era isso que eu pensava ser: um observador quase não humano, invisível. Ou gostaria de ser. Decidi não me incomodar com isso. Com o dente quebrado. Decidi manter assim porque cansei das mentiras do mundo. Um dente postiço é uma mentira. Uma mentira em favor da minha vaidade. Por quê não assumir um dente quebrado? Poderia aproveitar e quebrar o outro incisivo, de modo que causasse uma ilusão de simetria. Mas isso também seria vaidade, pensei. O que me fez lembrar de uma frase de O Natimorto que nunca esqueci: “vaidade e orgulho, o caminho pro inferno”. Mutarelli sabe das coisas. Às vezes, de noite, gosto de pensar nos meus dentes do siso, enterrados antes de mim, atrapalhando o caminho das minhocas.

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